22/09/2026 (terça-feira) - Luciano Arantes Sanches
A política do pão e do circo ainda existe?
Na Roma Antiga, o poeta Juvenal eternizou a expressão panem et circenses — pão e circo — ao criticar uma sociedade que, em sua visão, havia progressivamente trocado parte de sua participação na vida pública pela satisfação das necessidades imediatas e pelo entretenimento. Séculos se passaram, os regimes políticos mudaram e os meios de comunicação se transformaram profundamente. Mas uma pergunta permanece atual: mudamos a essência ou apenas modernizamos o espetáculo?
Hoje, o “circo” já não precisa de arenas ou gladiadores. Ele pode caber na palma da mão. A política também circula por vídeos de poucos segundos, memes, cortes de discursos, confrontos televisionados e conteúdos produzidos para provocar indignação, euforia ou identificação imediata. Nada disso é necessariamente ruim: comunicação e entretenimento fazem parte da sociedade. O problema começa quando o espetáculo substitui a informação, quando a torcida ocupa o lugar da reflexão e quando personagens se tornam mais importantes do que ideias, projetos e resultados.
O “pão”, por sua vez, merece uma distinção importante. Políticas públicas destinadas a reduzir desigualdades, garantir direitos e atender necessidades reais da população não podem ser automaticamente confundidas com instrumentos de manipulação. A questão está em outra dimensão: quando soluções circunstanciais são apresentadas como suficientes e dispensam o debate sobre educação, saúde, segurança, emprego, desenvolvimento e planejamento de longo prazo, o cidadão corre o risco de avaliar a política apenas pelo benefício imediato, sem observar suas causas, consequências e sustentabilidade.
Talvez, portanto, a pergunta não seja somente se a política do pão e do circo ainda existe. A pergunta mais incômoda é qual papel cada um de nós desempenha nesse cenário. Estamos buscando informação ou apenas entretenimento sobre política? Estamos analisando propostas ou torcendo por personagens? Uma democracia amadurece quando o cidadão não se contenta apenas em assistir ao espetáculo, mas procura compreender o que acontece além do palco.